INSIGHTS E PESQUISAS

Propósito Social e Impacto – Qual o papel das famílias empresárias nesse contexto?

Beatriz Johannpeter
Consultora associada, Cambridge Family Enterprise Group Brasil

Claudia Travassos
Consultora sênior, Cambridge Family Enterprise Group Brasil

Estamos cada vez mais conscientes do quanto nossas ações impactam o todo, positiva ou negativamente. Assim como nossos hábitos diários (e de consumo) podem contribuir para a preservação ou degradação do planeta e da sociedade, a forma como investimos nossos recursos também. Começamos a entender que precisamos minimizar impactos negativos e buscar práticas focadas em gerar impactos positivos para vivermos em um lugar sustentável, menos desigual e mais regenerativo.

O efeito da pandemia da COVID-19 provocou um aumento dessa consciência e deflagrou uma relevante mobilização em relação às necessidades sociais das comunidades mais vulneráveis. Ações socioambientais surgiram no Brasil e no mundo a partir desta nova consciência e temos presenciado um engajamento social como nunca visto antes. De acordo com o censo GIFE 2020 (que é a principal pesquisa sobre investimento social privado no Brasil), o volume total de investimento das organizações respondentes foi de R$ 5,3 bilhões, representando 63% mais do que o previsto para o ano, que era de R$ 3,3 bilhões (fonte: http://gife.org.br/censo-gife-2020). Em contrapartida, a pobreza aumentou, passando de 23 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha de pobreza para 28 milhões, de acordo com pesquisa FGV social no Brasil (fonte: https://portal.fgv.br/fgv-social).

A pandemia parece ter acelerado a percepção do importante papel que todos nós temos na resolução das questões sociais enfrentadas no mundo. Nunca se falou tanto de propósito e é esse propósito que poderá ser o impulsionador para nos fazer caminhar na direção de um futuro melhor.

Mudança de “mindset”

Uma evidência do que estamos falando é a priorização da pauta ESG – e não apenas de maneira retórica. O termo, que em inglês significa Environmental, Social & Governance, foi criado em 2004 pelo Pacto Global da ONU e trouxe para a discussão temas relevantes que, até então, pareciam não ter tanta importância. Questões fundamentais como inclusão social, diversidade racial e de gênero, emissão de gases de efeito estufa e transparência nas informações nunca foram tão consideradas e discutidas pelas empresas e por seus líderes.

Estamos vivendo um período em que sustentabilidade passa a ser pauta prioritária (finalmente!). O forte impulsionamento dos investidores fez com empresas buscassem a integração de práticas ESG à estratégia de seus negócios.

Atualmente, esses temas estão presentes não apenas nas discussões dos Conselhos de Administração das empresas e na avaliação de risco dos investidores, mas também no discurso de importantes líderes mundiais.

“Um número cada vez maior de investidores institucionais – de todas as regiões no mundo – está incorporando fatores ESG em suas tomadas de decisão de investimento e práticas de propriedade de ativos a fim de reduzir riscos, ampliar o retorno financeiro e atender às expectativas de seus beneficiários e clientes. Também estão diretamente influenciando companhias, órgãos reguladores e outros participantes do mercado para que melhorem seu desempenho nestas áreas. Com isso, o meio-ambiente e a sociedade como um todo estão recebendo benefícios tangíveis.” (Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU em 2019).

Historicamente, análises de investimentos financeiros sempre foram feitas através de duas perspectivas: Risco x Retorno. Recentemente uma terceira dimensão passou a fazer parte relevante dessa equação: impacto. Com isso, temos uma tríade a ser considerada: Risco x Retorno x Impacto.

 

Investimentos Sustentáveis e de Impacto

O mercado financeiro e, em especial, os assets owners possuem grande responsabilidade no impulsionamento dos investimentos sustentáveis e de impacto. Este direcionamento de alocar o capital em investimentos sustentáveis tem incentivado empresas a buscar praticas ESG, pois são determinantes para atração de talentos e dos investidores do futuro. Inspirados por esse novo cenário, Family Offices e gestoras estão reavaliando o impacto de seus investimentos, iniciando por negative screening e reforçando o direcionamento de seus ativos para negócios com propósito socioambiental – o foco dos investimentos está cada vez mais integrado aos objetivos socioambientais: investir com propósito e gerar impacto positivo – esse é o lema.

Vale ressaltar que a “Geração Millennials”, conhecida como “geração do propósito” vem contribuindo para esse cenário, provocando um avanço significativo no ecossistema de Investimentos de Impacto. Para essa nova geração de investidores, chegou a hora em que temos que ser investidores responsáveis, através de carteiras que integram rentabilidade, sustentabilidade e impacto.

 

O papel das Famílias Empresárias nesse contexto

Existem diferentes formas de uma família empresária impactar positivamente a sociedade e o meio ambiente. Portanto, cada família pode optar pelo modelo que mais convém, por meio de   diferentes trilhas. Famílias empresárias podem ser protagonistas nesse cenário de mudança.

Nós na Cambridge Family Enterprise Group temos testemunhado famílias empresárias cada vez mais engajadas e em busca de seu propósito social, na busca das melhores formas de contribuir. Entendem que a forma como seus recursos e esforços serão alocados é decisiva para essa mudança. Dentro desta perspectiva, essas famílias vêm atuando por meio de diferentes trilhas: Filantropia Familiar; ESG em suas empresas; Investimentos Sustentáveis e de Impacto.

Vale reforçar que não existe um modelo único de impacto social e as trilhas são complementares e sinérgicas. Desta forma, cada família empresária poderá escolher sua forma de atuar e impactar positivamente, de acordo com seus valores e seu propósito de longo prazo.

Essa decisão é uma jornada que normalmente se inicia com um alinhamento interno, antes de se definir estrutura e estratégia. É fundamental que a família entenda seus valores e seu propósito social para que suas ações – sejam elas realizadas através de qualquer trilha escolhida – sejam coesas e resultem em impacto positivo verdadeiro e mensurável. Este impacto gera, além de benefícios socioambientais, enormes benefícios internos para a família empresária, como união em torno de um proposito comum, engajamento das próximas gerações e reforço do legado familiar.

Em muitos casos, a trilha ESG, focada na relação com os stakeholders, é a trilha inicial e a forma como os acionistas se posicionam perante a responsabilidade que a empresa tem com seus públicos. Felizmente, as empresas estão indo além da sua responsabilidade social corporativa e estão buscando ser cada vez mais transparentes e sustentáveis, através da adoção das práticas ESG e da formalização de divulgações de sustentabilidade.

Importante considerar que ações socioambientais podem se dar também com a utilização de ativos financeiros. A migração de portfólio para fundos que consideram impactos socioambientais mensuráveis (além, é claro, do retorno financeiro) tem sido uma tendência no mercado.

Famílias empresárias têm um importante papel na construção de um cenário mais humanitário e sustentável. A elite econômica, em seus diferentes papéis de assets owners, conselheiros de administração e/ou controladores de grandes conglomerados, podem liderar e influenciar fortemente os rumos da sociedade.

Todo esforço conta e está cada vez mais evidente que a soma de esforços de empresas, governos e sociedade civil é o que moldará novos sistemas econômicos e sociais para responder positivamente aos desafios atuais e futuros.

2022-03-28T08:06:39-03:000 Comentários