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O desafio da sucessão: o caso da família real britânica

download pdfJoão Bosco Silva
Consultor sênior e sócio, Cambridge Family Enterprise Group Brasil

O recente desabafo do Príncipe Harry e Meghan Markle à apresentadora Oprah Winfrey é a mais recente polêmica que envolve a família Real britânica. A mídia do mundo todo abriu espaço para comentar a decisão do casal. Desta vez, ambos fizeram duras acusações à instituição apontando a indiferença da família real por seus problemas e até mesmo racismo.

O que chama a atenção é que apesar de toda a organização e dos protocolos da realeza britânica, a rainha e os demais familiares parecem ter sido novamente pegos de surpresa. No dia 08 de janeiro, a família real se surpreendeu quando Harry e Meghan anunciaram que deixariam de ser membros sênior da família real britânica. Acredito que a ausência de consulta, tanto do anúncio quanto da entrevista, parece ter sido calculada justamente para evitar que eles fossem cerceados em seu objetivo.

Já há algum tempo está clara a falta de entrosamento do casal com o restante dos Windsor. A entrada de Meghan na família gerou uma série de mudanças que parecem ter provocado transformações estruturais na realeza. Harry, sexto na linha sucessória ao trono, teria motivação, em pleno século 21, para seguir no estilo de vida da realeza? Meghan, atriz norte-americana, acostumada ao showbiz e a uma vida agitada com gravações, festas e prêmios, se acostumaria a uma rotina tão diferente?

Meu intuito aqui é fazer uma análise do processo de sucessão e desenvolvimento de gerações futuras da família real britânica, uma família empresária que possui marca, imagem e reputação de altíssima qualidade para gerenciar. Cometeram falhas? E que exemplos de governança de famílias empresárias poderiam ter inspirado essa transição?

A empresa “Família Real”

A família real britânica é uma empresa muito bem gerida que continua criando valor ao longo de décadas – é responsável por boa parte da receita de turismo gerada na Inglaterra. Seu patrimônio é estimado entre U$ 500 milhões e U$ 600 milhões. Os membros da família não possuem negócios ou trabalham. Fazem atividades de relações públicas para o Estado e administram seu patrimônio.

As fontes de financiamento da família vêm de três origens: o Sovereign Grant (subvenção soberana), a Privy Purse (carteira de renda privada da rainha) e os investimentos pessoais da rainha. A subvenção soberana vem do Crown State: renda das propriedades da Coroa que são de natureza semipública; esta renda se destina ao tesouro público, que distribui 15% do valor arrecadado à família real.

O valor arrecadado em 2018-2019 foi de R$440 milhões. Parte deste valor (R$13 milhões) foi utilizado para reformar o Frogmore Cottage, residência de Harry e Meghan. As despesas de segurança e manutenção dos castelos também são cobertas por esse montante. A rainha possui ainda uma carteira privada de propriedades que gera em torno de R$ 110 milhões de receita por ano, além de investimentos em títulos, ações e inúmeras obras de arte.

O desafio da sucessão

Rainha Elisabeth II, hoje com 93 anos, está no poder desde 1952. Charles, seu filho mais velho e primeiro na linha de sucessão, está com 71 anos. William, seu neto e segundo na linha sucessória, está com 37 anos. Sob o ponto de vista de gestão, está mais do que na hora de promover esta sucessão. Quem, afinal, vai assumir esta posição: Charles ou William?

O cargo não tem nenhuma função executiva no governo. A principal atribuição é preservar o prestígio e a imagem da família. O valor está na credibilidade da marca. Qual o perfil esperado para o sucessor da Rainha Elisabeth? Que desafios terá de enfrentar? Certamente um dos desafios será manter a família unida e alinhada quanto ao futuro.

Harry & Meghan

Sob o ponto de vista de criação de valor, a marca “Harry-Meghan” tem mais capacidade de criar valor de forma independente do que vinculada à casa de Windsor. Acredito que a delicadeza da operação esteja vinculada ao tipo de trabalho ou associação de produtos que o casal poderá realizar nesta nova fase sem afetar a marca da família real.

O casal registrou a marca “SussexRoyal” internacionalmente. Alguns especialistas estimam que sob este guarda-chuva poderiam obter até R$2,3 bi por ano em merchandising e utilização de imagem. Para a realeza, a questão é: esta iniciativa pode gerar desvalorização na marca “Família Real”?

Inspirações das famílias empresárias

Do ponto de vista de sucessão em famílias empresárias, as grandes questões me parecem ser: por que o jovem casal preferiu cruzar essa fronteira, se desvinculando dos

negócios da família empresária? O que a família real pode aprender com a boa governança das famílias empresárias?

É surpreendente perceber que uma família tão poderosa e abastada não trabalha iniciativas simples que por décadas têm sido utilizadas, e com bons resultados, por famílias empresárias que sobrevivem ao longo das gerações. Entre essas iniciativas, destaco cinco principais:

· Processo de sucessão: A sucessão nas famílias empresárias deve ser tratada com profissionalismo e objetividade. Os gaps de conhecimento e preparação do potencial sucessor devem ser mapeados para que se inicie um programa de desenvolvimento acompanhado por um tutor. O ideal é definir uma data para que ele esteja “pronto”

· Novos entrantes: Para as futuras gerações, é importante definir de antemão os critérios para os novos entrantes na família (cônjuges) e as regras que devem ser cumpridas para que a unidade familiar seja mantida

· Entrada em novos negócios: As famílias com boa governança possuem regras bem definidas sobre as atividades que são ou não permitidas aos herdeiros, a fim de evitar conflito com os negócios principais da família

· Diálogo entre gerações: Empresas familiares devem ter fóruns estruturados e dar oportunidades para as novas gerações se expressarem e compartilharem o que pensam e desejam para o futuro. Neste caso todos foram pegos de surpresa pela decisão do casal, o que dá a entender que ninguém nunca ouviu as aspirações de Harry e Meghan

· Alinhamento da Estratégia da Família: As famílias empresárias devem estar alinhadas quanto ao caminho a ser percorrido para se perpetuar a criação de valor da família, sempre fiel a seus princípios, valores e aspirações. O alinhamento da estratégia auxilia a família a enfrentar os desafios futuros

A blindagem da família real não nos permite saber detalhes dos bastidores, mas certamente um bom planejamento sucessório, um trabalho estruturado de diálogo, o alinhamento da estratégia da família e o desenvolvimento das gerações futuras evitariam muitos dos desafios agora vividos pela família real britânica.

2021-06-25T08:33:43-03:000 Comentários