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Como potencializar a comunicação na família empresária?

Bruna Tokunaga e Halina Matos

Muito se fala sobre comunicação, seja no ambiente de trabalho, na família, nas relações pessoais. Mas de fato, o que vale a pena destacar quando estamos falando de comunicação na família empresária?

Os estereótipos que construímos nas relações familiares, muitas vezes herdadas de gerações e vivências anteriores (e não necessariamente experiências diretas), cristalizam a troca e interações de qualidade, minimizando o diálogo e excluindo pontos de vista alheios. Ao assumir que tal pessoa “é a predileta” ou outra pessoa “é a alienada”, já parto para essa interação de maneira parcial, não neutra e menos disponível a criar um espaço genuíno para aprender, interagir e decidir em conjunto.

Quando uma comunicação se rompe, buscamos encontrar a resposta (ou responsabilizar) a pessoa que está do outro lado. Ao achar que o motivo está no outro, deixamos as coisas como estão e então os rótulos e preconceitos são reforçados. Encaramos o conflito como um obstáculo para conversar e perdemos então a oportunidade de discutir temas cruciais.

Encarar o conflito como “negativo e algo que deve ser evitado” é uma das principais armadilhas nas relações familiares. O conflito, na realidade, é a condição básica para que haja uma conversa; para tal, é necessário diálogo e, consequentemente, consentimento mútuo. Não se dialoga sobre conflitos de maneira unilateral. Portanto, comunicar-se é um processo que exige abertura e predisposição dos envolvidos, como um exercício interpessoal e interdependente.

Há famílias empresárias que se apoiam exclusivamente em canais informais para comunicar suas expectativas e tomar decisões. Outras se beneficiam de fóruns específicos e formais para dialogar a respeito de divergências e evoluir para decisões coletivas. Neste caso, tecer combinados de como a comunicação deve fluir pode apoiar este processo. Não é incomum que uma reunião com membros de família empresária seja permeada por hábitos negativos, como interromper, culpabilizar e/ou antecipar conclusões. Neste caso, é crucial encontrar acordos e caminhos para agir de maneira diferente. Para começar, uma sugestão é pedir que cada pessoa relate o que entende que seria importante que a família começasse a fazer ou parasse de fazer, de maneira a ter um ambiente mais seguro para trocas.

Apoiar-se em recursos visuais pode ser uma boa estratégia. Anote todos os combinados que devem ser lembrados e respeitados ao longo de reuniões, por exemplo, e coloque-os num local de fácil visualização. Reforce que esses combinados devem ser retomados a qualquer momento da conversa, de maneira a ser um guia prático para uma comunicação de melhor qualidade.

Segundo estudos, há táticas eficazes para melhorar a comunicação na família empresária, como:

– Trabalhar com informações ligadas a fatos e dados, e depender menos de crenças e opiniões subjetivas;

– Quando existir um impasse ou problema a ser resolvido, evite ter somente duas alternativas possíveis. Convide todos a pensarem em soluções criativas, como um exercício colaborativo;

– Tente chegar a uma conclusão somente quando todos já falaram e trouxeram seus pontos de vista. Isso tornará a conversa muito mais produtiva.

– Escolha o melhor local e duração para ter conversas importantes; encontrar espaços formais para ter conversas sobre o futuro de longo prazo da empresa é fundamental.

– Considere todos os canais e mensagens de acordo com os diferentes perfis que a família empresária possui. Alguns podem ser mais formais e estruturados, outros podem se satisfazer com mensagens instantâneas e diretas. O importante é garantir que a mensagem chegou de maneira adequada a todas as pessoas envolvidas – e não se esqueça de deixar o canal aberto para dúvidas e questionamentos. Lembre-se: comunicação é sempre uma via de mão dupla.

Por fim, assuma o caminho de aprender no diálogo com o outro; e não de provar o seu ponto de vista. A diferença é que, ao invés de ficar na defensiva e expor sua opinião como um fato, seu foco será mais em escutar ativamente e fazer perguntas abertas para entender seu interlocutor, ainda que você não concorde totalmente com seu ponto de vista. Falar em 1ª pessoa também é bastante útil, usando perguntas como “Eu não vejo dessa forma” e evitar “Isso não faz sentido”. Trazer os impactos que você percebe, a partir de uma perspectiva pessoal também são interessantes, como “A maneira como você colocou me causou um grande desconforto” e evitar frases como “Você é sempre muito rude”. Ou seja, a chave aqui é trazer sua perspectiva de maneira franca, porém aberta para seguir o diálogo em frente, e não o tornar um embate entre duas ou mais pessoas.

Da mesma maneira, é crucial que você mantenha o canal aberto e seja genuinamente convidativo, com perguntas como “Que perguntas vocês têm” ou “Como posso ajudar”. Lembre-se também da comunicação não verbal: não só esteja presente, mas demonstre que você está presente. Olhe as pessoas nos olhos, faça suas anotações, mas nunca desvie a atenção para objetos ou temas paralelos.

Comunicar é uma arte ou uma ciência? Talvez ambos. Mas certamente é uma jornada coletiva, onde fortalecemos o indivíduo, ao mesmo tempo em que desenvolvemos o grupo. Essa interdependência é um dos elementos mais belos na família empresária e o convite é para que todos se engajem nessa evolução. 

2021-10-28T17:53:57-03:000 Comentários